domingo, 1 de março de 2009

Memórias do 192

Lembram-se da Rua Nuno Álvares Pereira? Nessa primeira casa à direita, depois do quintal com arbustos e flores (não sei se fazia parte da casa) morava a família Biscaia, incluindo duas filhas e um filho, nossos colegas. O pai era dono do único taxi da terra, não chegando para as encomendas.
As filhas eram das colegas mais bonitas que tínhamos. A mais nova, cujo nome de baptismo ora me escapa (a mais velha, muito magrinha, era a Guilhermina, conhecida por Mimi), foi a vítima da primeira vez que dancei com uma mulher, que não a minha mãe. É um evento que um marca e até recordo que a música era "La Comparsita", isto ainda antes do "Rock-Around-The clock" nos ter caído em cima, sem pré-aviso. Devo ter-lhe dado uma ou duas pisadelas, sobretudo pelo nervosismo de ela ser uns dois anos mais velha que eu, o que nessas idades faz diferença. Com o irmão mais novo, e também uns dois anos mais novo que eu, tive poucos contactos; mas recordo-lhe bem as feições, pele muito branca, cara estreita, um retrato quase fiel da irmã mais nova.
Rua abaixo, à esquerda, em direcção à igreja matriz, ficavam a GNR, a sapataria (ou alfaiataria?) do Pivetas, a pensão, a barbearia, e já no fundo da rua dando de esquina para a rua principal, o café do Cipriano, com uma única mesa de bilhar, por vezes disputada ao sopapo. O Verdugo e eu, levantávamos a mesa de bilhar com um ombro, éramos umas mulas de força, não precisávamos de andar à batatada para jogar bilhar.
O Pivetas, pouco instruído, era uma espécie de filósofo da terra; conversava sobre tudo, soubesse ou não, e quando estava com os copos a conversa era a triplicar.
O barbeiro tinha aprendido a arte em Lisboa, gabava-se de ter feito a barba a gente ilustre lisboeta, condes, doutores e políticos da situação. Na barbearia sabíamos de tudo o que se passava na terra, mais o que a imaginação dizia que se passava, quem andava metido(a) com quem, enfim, conversa fiada que ajudava a passar o tempo enquanto o pente e a tesoura cantavam e a navalha, sempre afiada a uma velocidade impressionante, nos ia ameaçando a garganta e as orelhas.
Da GNR lembro-me do Cabo Freixo, por coincidência de Freixo de Espada-à-Cinta, cujo filho, puto, era aluno externo. Será o Cabo Freixo o vulto que se vê na foto, na porta debaixo da bandeira? Recordo vários episódios interessantes com o Cabo Freixo, mas só vou contar um, por agora. Éramos já grandotes, o Prior, Jorge Nogueira e eu, quando apareceu no IVS o Tó Farinha de Pedrógão Grande, um ano mais velho que nós, trazendo o carro Sinca Around, herdado por morte do pai. O carro depressa nos arranjou sarilhos. Nos fins-de-semana fugíamos à noite da camarata, por uma janela, depois de estendermos o travesseiro ao comprimento da cama e a cobrirmos para enganar o guarda-nocturno João, e íamos até Lisboa, 172 km para cada lado. Numa dada madrugada, chegados de Lisboa, cansados e cheios de sono, eu sou o último a tentar subir pela janela. De repente, sinto uma mão forte a prender-me o tornozelo e a intimar-me a identificar-me. Era o Cabo Freixo na sua ronda nocturna, pensado tratar-se de um ladrão. Tive de contar-lhe tudo e ele deixou-me subir, sem me denunciar. Quanto ao guarda-nocturno João, ainda hoje estou convencido que sabia da marosca, mas fingia não saber.
Que saudades!

1 comentário:

Acácio Leite disse...

O Manuel Faia também tinha um carro antigo , as fugas eram constantes para verem touradas e uma vez chegaram ao IVS com capim em vez em vez de ar nos pneus.