sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

O aluno nº 192 do I.V.S. com dois meses de casa e já com a medalha de Bom Comportamento pregada ao peito. Mas não foi fácil, não?

Tenho de fazer uma confissão. Sou filho único, era muito mimado quando cheguei ao I.V.S.. Tão mimado que muitas vezes ao jantar em casa, por pura birra e para testar a minha mãe, quando ela me punha o prato à frente eu dizia “não gosto, quero outra coisa”! A mãe, em vez de dar-me um par de bolachas, saia disparada e preparava-me um prato diferente.

Deixado de repente num sítio desconhecido, a 6.000 km da casa onde reinava, a primeira coisa que me ocorreu foi que os pais se queriam ver livres de mim. E foi com essa dúvida na cabeça que me sentei pela primeira vez no refeitório do externato velho, entre gente desconhecida a olhar-me de soslaio e a cochichar que eu bem os ouvia. Eu tinha chegado nessa tarde. Fui logo verificar se tinha a braguilha aberta ou coisa que o valha.
Pois bem, servem o jantar e põem-me no prato uma coisa mal-encarada que nunca me tinha sido apresentada, formal ou informalmente. Lembrei-me como as minhas birras funcionavam à maravilha lá a 6.000 km de distância e, vai daí, tentei o mesmo truque: “Não gosto, tragam-me outra coisa para comer”, disse em voz firme e razoavelmente alta.
Risada geral no refeitório! Nisto, aproxima-se um cidadão mal-encarado, com a cara bexigosa e de pele avermelhada que me diz: “Ah, então o menino (arrasta a palavra me------ni-------no) não gosta! Pensas que estás num hotel de 5 estrelas? Pois vais passar a gostar de sarrabulho a vida inteira! Não sais da mesa até comeres!”

Eu sabia lá o que era sarrabulho! E assim foi. A rapaziada acabou de jantar e saiu pela porta fora a rir como se eu fosse um marciano e eu fiquei sentado. O cidadão mal-encarado, com a cara bexigosa e de pele avermelhada sentou-se a ler um livro a alguma distância. Pensei para mim, vou vencê-lo pelo cansaço. Ainda pedi duas ou três vezes para ir-me deitar, mas a resposta foi sempre “negativo, come!”. Quando a cabeça ensonada me começou a cair sobre o prato, entendi que tinha perdido a parada. O cidadão mal-encarado, com a cara bexigosa e de pele avermelhada - que vim a saber se chamava Paiva - o famoso Prefeito Paiva - e a minha mãe não tinham nada em comum. Este não tinha coração! Só me restou uma saída, meter duas garfadas à boca e ver no que dava. Assim fiz e enquanto o fazia não é que aquela porcaria até tinha um bom sabor? Pensei para mim, “bolas, és matumbo pula (branco estúpido em dialeto kimbundo), se isto sabe bem frio, quente deve ser uma delícia”. Finalmente, o Prefeito Paiva, lá me deixou ir deitar.

E de facto passei a gostar de sarrabulho até hoje.
Assim foi a minha desfloração de menino mimado.
P.S. Fiquem descansados com o pormenor da revista enrolada na mão, seus mal intencionados. Foi ideia do tira retratos e não era a PlayBoy...

2 comentários:

Acácio Leite disse...

De certeza que enquanto pensavas se havias ou não de comer o sarrabulho o Paiva acabou com o resto das unhas . Ele não roía as unhas , devorava-as

Sérgio Lopes disse...

É verdade, ó Acácio, esqueci-me desse pormenor das unhas, que era a "marca registada" do Paiva. Era impressionante o apetite de unhas que o homem tinha, no sentido inverso ao meu (des)apetite pelo raio do sarrabulho.

Mas estás a ver a cena, não estás? Chega um cidadão das Áfricas, habituado a churrasco de galinha cabir, funge com peixe-galo, moamba de peixe, calulu de carne seca, cacuso grelhado na brasa, muzongué, sobremesa de mousse de maracujá, e logo ao primeiro jantar no puto atiram-lhe com sarrabulho! É caso para "luvevumuku lua nsunga"...