sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Antigo Aluno Rui Gomes: do I.V.S para a fama no cinema internacional

Rui Gomes (Beira 1939-Lisboa 2001) Quem se recorda do Rui Gomes, um rapaz loiro que veio de Moçambique e que também faleceu prematuramente? O Rui não era grande companheiro para as nossas patifarias, nem para desporto. Era um pouco taciturno, mas educadíssimo e amigo do seu amigo. Tinha uma ambição o Rui, ser artista de cinema. Era a nossa reserva das revistas de cinema daquele tempo que nós íamos espreitar longe da vista dele para vermos as vedetas da época: Marilyn Monroe, Rita Hayworth, New Barbara Stanwyck, Doris Day, Mitzi Gaynor, Debbie Reynolds, Elizabeth Taylor, Esther Williams, Anne Baxter, Ann Blyth, Claudett Colbert. Pois o Rui foi mesmo artista de cinema, realizador e escritor. Curiosa foi a circunstância em que voltei a ter notícias do Rui Gomes, mais uma década depois de ambos termos deixado o I.V.S.. Corria o ano de 1971, estava eu na África do Sul há 8 anos quando me pus a conversar com um colega de trabalho sobre Moçambique, donde era a namorada dele. Ao falar-se na Beira, veio-me à memória o I.V.S. e o Rui Gomes que sabia ter nascido lá e disse ao colega, Eduardo Ferros (sou padrinho da única filha do Eduardo), que havia dois rapazes da Beira no colégio e disse-lhe os nomes, Telmo e Rui Gomes. Para meu espanto, o Eduardo Ferros retorquiu: - “Rui Gomes da Beira? Conheço-o muito bem e lembro-me dele falar num colégio interno onde andou lá para os lados de Tomar! Eu fui o operador de câmara do filme Verde Anos (Estreia: Cine-Teatro São Luiz, Lisboa, em 29 Novembro 1963), onde ele desempenhou o papel principal (Júlio). O filme que marcou a viragem do cinema português!” Fui confrontado com duas surpresas, o Rui artista de cinema e o Eduardo Ferros, que eu pensava já ter nascido na aviação comercial, tinha sido um operador de câmara profissional. Depois contou-me que tinha feito um curso de operador de câmara na Inglaterra, mas que tinha desistido da profissão logo depois do Verdes Anos ter sido acabado, por que o cinema em Portugal pagava pouco. E mais me contou que o Rui Gomes tinha ido para Paris depois do colégio frequentar uma academia de formação de actores de cinema e televisão e que antes de fazer o Verdes Anos já tinha tido papéis importantes noutros filmes. Mas nunca mais tive a oportunidade de ver o Rui Gomes, senão na tela. No Verdes Anos, com 24 anos de idade, ainda tinha as feições iguaizinhas às de Cernache, incluindo o corte de cabelo.

Rui Gomes e Isabel Ruth em "Os Verdes Anos", de Paulo Rocha. (Col. Cinemateca Portuguesa)

Eis uma curta biografia e filmografia do Rui, onde o Eduardo Ferros é também reconhecido: Full cast and crew for Verdes Anos, Os (1963) Directed by Paulo Rocha Writing credits (in alphabetical order) Nuno Bragança writer Paulo Rocha writer Cast (in credits order) Rui Gomes ... Júlio Isabel Ruth ... Ilda Ruy Furtado Paulo Renato ... Afonso rest of cast listed alphabetically: Óscar Acúrcio Alberto Ghira Cândida Lacerda Carlos José Teixeira Rosa María Vázquez Produced by António da Cunha Telles .... producer Original Music by Carlos Paredes Cinematography by Luc Mirot Second Unit Director or Assistant Director Fernando Matos Silva .... assistant director Camera and Electrical Department Eduardo Ferros Crítica ao filme: "Os Verdes Anos é o primeiro filme das produções Cunha Telles que, pode dizer-se, começavam com o pé direito: o filme seria premiado em Locarno, o nome de Paulo Rocha surgia nas principais revistas de cinema europeias como uma revelação. Visto hoje, Os Verdes Anos têm o grande mérito de ser um documento precioso sobre Lisboa do princípio dos anos 60, o seu provincianismo, o desespero e a sufocação de uma geração jovem. Para o cinema, o filme revelava ainda a sensibilidade de um compositor (Carlos Paredes) que construiu um tema musical que ficaria célebre (...). Pela primeira vez depois de muitos anos este filme sintonizava-se com a realidade portuguesa, espelhava-a. Era um vento de mudança no cinema que por cá se fazia. Mas a mudança não estava só na respiração temática. Acontecia também (...) na respiração fílmica, na atenção aos movimentos de câmara, à realidade plástica dos planos, aos tempos. Mais de vinte anos depois, Os Verdes Anos, não ganharam cãs, sabemo-lo... O que quer dizer que o Cinema Novo que nele se propunha o era, de facto." João Bénard da Costa, in Histórias do Cinema, Sínteses da Cultura Portuguesa, Europália 91, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa.

Noutro filme em exibição no Japão

Nos "Os Olhos da Ásia" Rui Gomes contracenou com Geraldine Chaplin

Lá onde estás, Rui, descansa em paz!

2 comentários:

José Avelar disse...

Sérgio
As feições não me são totalmente estranhas, mas não posso dizer com firmeza que me recordo dele .
Quanto ao cinema recordo-me que havia um em Cernache ao ar livre e que no Verão passava uns filmes (á noite),mas se havia vento estava tudo estragado pois o écran era um lençol que mexia com o vento.Só as cadeiras é que não mexiam,pois eram
de cimento e estavam agarradas ao chão.Recordas-te
Um abraço
J.Avelar

Sérgio Lopes disse...

Acácio
Francamente não me recordo do cinema ao ar livre, mas será da minha memória.

O que recordo é que de vez em quando passavam um filme na Sala de Estudo do externato velho, mas isto teria sido anterior a 1958, quando tu chegaste. Era uma "cena"- para usar a gíria da garotada moderna -, pois a película quebrava várias vezes durante a projecção e nunca falhava: sempre no melhor da fita! Eram assobios que se ouviam na Roda! O Prefeito Paiva (que de "perfeito" nada tinha) dava saltos de corsa até dominar a manada... Ameaçava a malta só com uma mão, por que precisava da outra para roer as unhas ahahahahah! O operador de câmara era, se bem me recordo, o José Oliveira, que acumulava com a função de treinador de futebol.

E agora vem a propósito, nunca perguntei ao Oliveira se alguma vez na vida tinha jogado futebol ou se era um dom natural ahahahahahah!

Mas pensando melhor, claro que teria que ter havido algo a substituir as raras sessões de cinema na Sala de Estudo do externato velho, só que não me recordo.