terça-feira, 14 de abril de 2009

A VELHA DA AZENHA por Ferreira de Lerena

Do nosso estimado professor e escritor Ferreira de Lerena recebi uma explicação.   Foi ao nosso blogue, nas não entrou por que não atinou com o processo de registo. Deu-nos, porém, a alegria de sabermos que está bem e foi mais longe, oferecendo-nos este seu lindo Conto, que publico com o nosso reconhecimento:

A VELHA DA AZENHA 

 Para lá da aldeia havia um pinhal. No fundo do pinhal corria um ribeiro. Ao pé do ribeiro mo­rava uma velha. Essa velha tinha uma azenha. E todos os dias fregueses deixavam sacos de trigo ou de milho à porta da azenha da velha que morava ao pé do ribeiro, no fundo do pinhal, para lá da aldeia...

Mas um dia a azenha da velha deixou de cantar no eixo da mó. A água corria na pequena levada, as pás carcomidas giravam ainda, o eixo podia cantar e a mó podia moer. Mas a mó não moía, o eixo não cantava, as pás não giravam, só a água corria e a velha chorava. Os dias passavam, e a pobre, curvada e velhinha, no seu fato  negro  já gasto como ela, sentada na laje à porta da  casa, olhava, calada e vencida, o novo moinho que um novo ricaço erguera adiante, além do ribeiro... Tudo era novo: a casa da moagem, branquinha de  cal, a estrada aberta para a aldeia, e até o apito era novo acordando o silêncio no fundo do pinhal... Um grande motor roncava e moía. E todos os dias o apito to­cava, e todos os dias de todas as bandas os sacos che­gavam em grandes carradas; instante a instante saía a farinha,  p’ra longe, p’ra perto, para todas as bandas, em carros enormes de sacos cheiinhos...

 

E a pobre moleira, com dor e com fome, olhando a moagem, novinha de cal, olhava a azenha, velhinha a cair. Velho e a cair estava tudo: o casinholo, a esbo­roar-se, ninho de aranhas e lagartos; a minúscula aze­nha a desfazer-se; e ela também, aos tropeços, manca-que-manca, um ror de anos que nem ela sabia já quantos!, moendo farinha para todos os lugares em redondo. Moeu a vida juntamente com a farinha. Agora, talvez acabasse tudo, ela e a azenha, ao lado do ribeiro cujo cantar rosnão nos açudes ia morrer, em cima, nas quebradas agudas das margens...

Os fregueses de há muitos anos já não desciam, com os seus burricos carregados de taleigos de cereal, pelo carreirito pedregoso, torce-que-torce, toc-toc, até à azenha, ronceira mas fiel; iam estrada nova abaixo entre carros e camiões para o moinho grande, de maquinaria moderna, rápida, lá adiante, na curva do ribeiro...

E a velha continuava só, à míngua de uns tostões que lhe davam, porta aqui, porta além, porque a vida dela já não tinha outro significado nem novas esperan­ças, paralisadas as mós do seu moinho. As tardes, dia após dia, e mês, e mês, e mês, passava-as sentada na soleira da porta, cismática, a ouvir o silvo da moagem espalhar-se por fragas e pinhais, as mãos encruzadas sobre o ventre, o queixo comprido e esguio em movi­mentos ritmados – o que mais tinha para mastigar!

Uma que outra vez, velha mirrada e camba como ela passava o vau do ribeiro, quando as águas não cor­riam de enxurrada, e botava conversa:

«– Quem a viu, ti’Anica, tão de volta do seu moi­nho. Mas aquele ricaço tem feito para ali coisa grande!»

«– É sempre assim, mulher – respondia a velha, já tataranha de língua. – Quem é pobre e nada tem, fica com o que tem!»

«– Ora! – exclamava a outra. – Dizem que a fari­nha, ali, fica moída num instante. Mas já ouvi muita resmunga. Que são uma súcia de ladrões, o ricaço e os sócios ou lá o que eles são. E olhe que a freguesia, dizem, não anda nada contente.»

A velha nada dizia. Continuava a mexer o queixo, remoendo ideias surdas, meneava a cabeça, sacudia o avental. Depois, quando a outra desandava e desaparecia, já do outro lado do ribeiro, levantava-se e ia, manqueando, ao pinhal juntar caruma e uns cavacos secos para acender o lume e cozer duas batatas que comeria com um migalho de pão escuro. 

Manhã cedo de um tempo depois foi ela desperta por um sabido zurrar de burreco, ali mesmo, junto da sua porta.

– Ti’Anica! Ó ti’Anica! – chamava uma voz boçal de homem.

– Lá vou, lá vou!

Enfiou as velhas saias, atou o lenço preto à cabeça e veio cá fora. E o que viu deixou-a incrédula, pregada ao lajedo. Podia lá ser! Quatro sacas de cereal, à porta da velha azenha!

– São para vossemecê moer, ti’Anica! – gritou o homem trazendo o asno pela arreata. – O meu trigo passa a ser moído aqui, ‘tá a ouvir?

A velha juntou as mãos.

– Benza-te Deus, homem! Então... e a moagem?

– Uma ladroeira, ti’Anica! Que eles não devem ir longe. Já lá anda a fiscalização!

– Mas os sacos chegam às carradas – objectou ti’Anica.

– Qual! A freguesia está a fugir-lhes, e por mais um pouco vão à vila, que lá a coisa é a sério. E há os que, como eu, vão continuar a vir ao seu moinho, se ainda trabalha...

– Lá trabalhar, há-de trabalhar. Não vês a água, como corre! Vai dar forças à mó!

–  Olhe... aí vêm também o Zacarias e o Inácio!

– Graças a Deus!– exclamou a velha, tremendo o queixo e persignando-se. Depois foi abrir a desmante­lada porta do moinho, há tanto tempo cerrada com grossa tranca de eucalipto. 

Voltaram a girar as pás na levada, voltou a cantar o eixo na mó. Já não tem fome a velha moleira, que mói a farinha na azenha em ruínas, ao pé do ribeiro, no fundo do pinhal, para lá da aldeia...

 FERREIRA DE LERENA

 Este conto foi escrito em 1956, publicado na revista Flama e, mais tarde (1968), inserido no livro de leitura oficial do Ensino Técnico Profissional LUSA PÁTRIA, 4.ª edi­ção, p. 243.

3 comentários:

Natércia Martins disse...

Gostei da história do Professor Lerena. Não foi meu Professor,mas tenho ideia dele no Instituto.
Havia um leque de bons professores e só assim se compreende que alunos daqueles tempos ocupassem, no decorrer da vida, posições de tanto relevo. É que as pessoas fazem-se desde os princípios que lhes são incutidos pelos professores. Isto é assim, quer queiram quer não.

Sérgio Lopes disse...

Se havia um leque de bons professores no IVS e com vocação nata para ensinar. Isto, note-se, antes dos psicólogos e assistentes sociais terem invadido as escolas para classificar, mudando-lhe os nomes, e raramente “curar”, a mandriice, a malandrice, a má-criação, o “xikuxpertimo” e outras inclinações menos boas que as crianças desenvolvem, se não forem amparadas por professores isentos, experimentados e vocacionados para o difícil metier que é o ensino. No tempo em que o professor era um profissional “4 em 1”, isto é, professor+pai/mãe+psicólogo+assistente social...

A provar o acerto dos nossos professores de então, estão as licenciaturas, mestrados e doutoramentos se lhe seguiram, as carreiras profissionais brilhantes e o sucesso empresarial de muitos dos alunos que saíram da forja do elenco docente do IVS.

De entre eles destaquemos o prof. Ferreira de Lerena com um Bem-Haja em nome de todos aqueles que guiou e ensinou e não sabem da existência deste blogue.

Um grande abraço prof. Ferreira de Lerena e que Deus o guarde por muitos anos.

Joao Facha disse...

Não conheci o prof,Lerena.
Mas gostei da forma como escreve.Algo saudosista mas forte,intensa,sem os rodriguinhos de hoje.
assim vale a pena PROFESSOR.