sábado, 3 de abril de 2010

Vida no Castelo

Aquele castelo sempre me fascinou.

Erguido no cimo do monte, logo que se atravessa o grande portão de entrada, somos transportados a tempos medievais.

Do cimo das muralhas, os arrozais a perder de vista, entrecortados pelo verde escuro dos salgueiros e o rio que os atravessa.

A vila, no sopé, foi-se avolumando com o casario até lá abaixo, no fundo do monte.

Antigamente, o rio zangava-se e transbordava alagando tudo, transformando os terrenos em enorme lago lamacento e castanho. As pessoas acostumadas já não estranhavam. Limitavam-se a levar os seus haveres para pisos superiores das habitações e os animais, lá para cima, em abrigos no monte.

Quando o rio baixava, os detritos que ficavam depositados tornavam a terra ainda mais rica e fértil.

Sento-me numa pedra no cimo da muralha, numa tarde ensolarada de Domingo, quando resolvi dar uma volta por lá: ao castelo de Montemor-o-Velho..

Delicio-me olhando as verdes marinhas semeadas de arroz e milho que em Setembro se transformam em loiras searas com ceifeiras enormes que parecem formigas, vistas lá do alto, ziguezagueando por entre as espigas.

Castelo povoado de lendas, onde se mistura o fantástico com o real, de tal forma que nos faz acreditar que um dia podia ter acontecido.

A lenda de Abade João é prova disso, ou mesmo a lenda das Arcas da fortuna e da peste. Há quem acredite que enterradas nas muralhas se encontram duas arcas de pedra. Uma cheia de ouro e outra cheia de peste. Só que ninguém se atreveu a abrir a tampa de nenhuma delas com medo que em vez de ouro saia lá de dentro miséria, doença e peste.

A lenda de Abade João também se conta por ali, com laivos de verdade.

Ao tempo do Abade João, o castelo foi cercado por forças do califa de Córdoba, comandadas por um cristão renegado: Garcia Ibanhez Zuleima.

Em número superior, os combatentes do castelo deliberaram dar morte a todos os que ficaram, degolando-os, incluindo as esposas e filhos para que não fossem martirizados, caso perdessem a batalha.

Assim sendo, lutaram com tanta raiva que venceram. E foi aí que se deu o milagre. Os familiares dos defensores do castelo foram a correr esperar os vencedores com as cabeças repostas no seu lugar. Ainda hoje, a imagem de Nossa Senhora da Vitória tem uma cicatriz vermelha no pescoço, na Igreja local, que evoca o milagre.

E vou ficando a olhar o pôr do sol, para o lado da Figueira da Foz. O Sol quase mergulha no horizonte, transformando o céu numa paleta de cores. Uma cegonha sobrevoa a minha cabeça à procura do ninho, algures numa velha chaminé. As garças procuram alimento no sapal onde uma lontra espreita por entre a folhagem das canas, as rãs coaxam uma sinfonia algo estranha.

Ouço barulho e assusto-me. Olho para trás e vejo soldado medieval. Cota de malha em ferro e sandálias de couro.

Meu conhecido ? Não !!!!

Olhou-me e sem se assustar perguntou o que fazia eu ali. Disse-lhe que gostava de olhar a paisagem do cimo das ameias. E ele ? Que fazia ali ? Disse-me que morava ali com a mulher e os filhos.

Mais barulho. Ao fundo e em grupo vinham soldados vestidos da mesma maneira e apressavam-se a subir a ladeira empedrada da entrada. Um senhor vestido com túnica vermelha, montado num cavalo, seguia na frente. Uma dama e as suas aias vieram esperá-lo com risinhos e alegria.

Desmontou do cavalo. Nem olhou para mim, nem estranhou as minhas calças de ganga e máquina fotográfica. Com o meu amigo guerreiro fui andando pela relva, rumo às traseiras da Igreja de Alcáçova, antigo cemitério.

Era já noite. Andavam por ali umas mulheres estranhas Traziam roupa preta e dançavam tendo no meio da roda uma enorme fogueira que elevava as chamas para o céu.

Descobriram-me e fizeram-me dançar com elas, nunca me deixando sair Ora puxava uma, ora puxava outra E eu dancei, dancei ... E a lua lá em cima redondinha, grande, cheia !Já quase manhã, uma a uma foram desaparecendo, deixando-me sozinha . Aninhei-me ainda mais no ombro do meu amigo.

O castelo fervilhava de gente estranha, todos vestidos da mesma forma.

Das chaminés das casas saía o fumo das lareiras acesas e no ar o cheiro da panela da sopa que fervia, temperada com um bom naco de presunto ou toucinho.

Uma cavalgada e um cavaleiro apressado gritava

__ Deixem-me passar ! Fui ao Afonso comprar umas espigas doces para a minha mulher que está de esperanças E lá foi a galope com as caixas debaixo do braço, a caminho de casa.

Eu desci as escadas até à vila e ao volante do meu automóvel nem sei se sonhei ou se o castelo se encheu de vida naquele dia.

Natércia Martins

3 comentários:

Sérgio Lopes disse...

Sempre muito bem, Natércia!

Natércia Martins disse...

Obrigado pelo teu comentário. É sempre com agrado que leio o que dizes sobre o que escrevo.

Antonio Garcez disse...

Não pares a tua imaginação, são sempre contos maravilhosos.
Até logo