quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Uma capital e duas dioceses

por António Mendes Nunes, Publicado em 14 de Outubro de 2009 no jornal i.
A 8 de Julho de 1716 chegou a Roma uma luzida embaixada liderada pelo marquês de Fontes, com a qual D. João V enviava belíssimos e riquíssimos presentes ao Papa Clemente XI. Não havia ali ponto sem nó: o rei português, não satisfeito com o conforto do poder temporal absoluto, também quis ter debaixo da sua asa o poder espiritual, se possível com uma melhoria, a passagem de um bispado sujeito à diocese de Braga, como sucedia desde 1147, a um patriarcado que só responderia perante Roma, e perante o rei, bem entendido. Quatro meses depois o favor foi retribuído. Em 7 de Novembro desse mesmo ano, pela bula pontifícia In supremo Apostolatus solio, era criado o patriarcado de Lisboa com sede na capela do paço real. Como o antigo bispo não podia ser despedido, ficou com uns restinhos de território e com a sé de Lisboa. E assim durante um século Lisboa teve duas dioceses. D. Tomás de Almeida foi o primeiro patriarca de Lisboa (1716-1754), com avultados presentes e enormes dotações. A capela real do Paço da Ribeira, localizada onde hoje está parte da Praça do Município e o edifício da câmara, foi aumentada para o dobro. Tomaz Pinto Brandão e Barbosa Machado, cronistas da época, dizem-nos que era magnífica, guarnecida de belíssimas pinturas de mestres e toda forrada de ouro. Opinião diferente deixou Pierre Humbert, um tipógrafo holandês de passagem por Lisboa, no seu livro de 1730 "Description de la Ville de Lisbonne". "A sede da patriarcal é no paço do rei. É grande, mas quanto à arquitectura e às suas pinturas é tudo de muito mau gosto e vulgar."

7 comentários:

Sérgio Lopes disse...

Mais um tema bem escolhido com que nos deleitaste, caríssimo AntónioMN. D. João V de facto espantou e sacudiu a Europa na sua época.

No entanto, numa análise mais profunda e sensata, a sua miopia política implicou enormes despesas. No período de maior fluxo de ouro e de diamantes, o Fidelíssimo e os seus conselheiros não viam motivos para se preocuparem com gastos tão excessivos. Apenas se limitaram a regulamentar a exploração mineira e a cobrança de impostos sobre o ouro e as pedras preciosas que, com os rendimentos do açúcar e do tabaco, bastavam para equilibrar a balança comercial. Mas porque só timidamente apoiaram o fomento das indústrias, deixaram o país exangue de recursos. Aquando da morte do Fidelíssimo em 1750, os políticos mais esclarecidos sabiam que era preciso mudar de orientação política.

Natércia Martins disse...

Um comentário oportuno, quase uma " adenda" ao artigo publicado.
Muito bem Sérgio. É uma pena os nossos antigos colegas ficarem a ler tudo na sombra e não comentarem, estes e os outros artigos.

Sérgio Lopes disse...

Agradeço o teu comentário, Natércia, mas não foi minha intenção fazer nenhuma adenda ao escrito do teu irmão. Suponho que o teu irmão tem no jornal uma missão específica que não inclui comentários do foro político, por isso ousei fazê-lo eu e espero que o nosso António não se melindre. Assumo eu toda a responsabilidade do comentário que fiz e me pareceu oportuno.

Natércia Martins disse...

Eu também não tive intenção de querer melindrar ninguém com o meu comentário. Apenas entendi que o que escreveste estava muito bem e de certa forma completou o que o meu irmão escreveu. Ambos escreveram o que escreveram e muito bem. Se tu ou ele se melindraram, peço desculpa.

Sérgio Lopes disse...

Natércia, não houve melindre da minha parte, nem poderia haver. Apenas e tão só esclareci a minha intenção. Compreenderás, certamente.

AntonioMN disse...

Depois de cinco dias sem internet caseira (mais uma vez o péssimo equipamento da PT nas suas centrais telefónicas fez das suas), eis-me de volta.
Bom comentário Sérgio, foi exctamente o espírito de novo-rico do D. João V (de outros que o antecederam e de alguns que se seguiram) que fizeram com que Portugal praticamente não beneficiasse do período áureo, quer do ciclo da Índia, primeiro, (em que quase toda a riqueza gerada pelo comércio de especiarias orientais ia parar direitinho aos Países Baixos), quer mais tarde, com o ciclo do Brasil (Açúcar, ouro e pedras preciosas), em que o dinheirinho ia para Inglaterra.
Foi esse o corte radical que o Marquês de Pombal tentou dar no reinado de D. José. Consegui-o em parte, mas não completamente.
É curioso ler, a este propósito, o livro de memórias de Jàcome Ratton, um industrial e financeiro que viveu em Portugal no século XVIII e que aponta algumas razões (com ela ou sem ela), para que continuassemos na nossa triste senda do "pobretes mas alegretes".
A minha irmã considerou que o que tinhas escrito situava e clarificava bem a situação política da época em causa, que tinhas feito uma adenda e teve toda a razão.
A historieta ficou muito mais rica e os blogues servem para isto. Muito, mas mesmo muito obrigado aos dois!
Assim fizessem todos. Criticar. Para acrescentar, dizer bem e dizer mal.
Um abraço
António

Sérgio Lopes disse...

Grande AntónioMN!
A história verdadeira começa a tomar forma. Veremos se mais alguém dá a sua achega.
Grande abraço