sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Tobias

Tobias

Não sei muito bem como, mas dei por mim longe dos meus irmãos. Tentei gritar e chamar, mas o lugar onde me encontrava era tão quentinho e macio, que adormeci.

Quanto tempo ali estive, não sei. Acordei com o barulho de um portão a abrir e o ladrar de um cão.

__ Mau ! Um cão !

Ouvi uma voz grossa de homem dizer:

__ Quietinho, Fiel !!! Tem cuidado porque hoje trago uma prenda aqui dentro do bolso. Vai ser a alegria dos meninos.

Mais uma porta se abriu e o barulho de vozes fez-se ouvir:

__ Avô, avô trazes uma prenda ?

__ Sim. Não sei se vão gostar.

Uma mão grande agarrou-me com cuidado e tirou-me do bolso. Era uma bolinha preta, pequenina com dois olhitos assustados, assim na palma da mão.

Todos gritaram de alegria:

__ Um gatinho !

Pois era ! Um gatinho muito pequenino, preto, de olhitos castanhos e orelhas tão pequeninas que nem se viam.

Afinal era eu a prenda que o avô trazia. Foi uma algazarra. Todos queriam dar – me um nome. Surgiram sugestões: Óscar, Bolinha, Pantufa, Tareco..... Todos os gatos se chamam tareco. Era um nome muito corriqueiro.

Não havia consenso .... Foi, então que a avó, sentada num velho cadeirão decidiu:

___ Não se vai chamar nada disso ! Vai ser Tobias.

E fiquei Tobias.

Brincava no colo dos meninos e dormia em almofadas. Quando podia dar uma escapadela era na cama do Joãozito. Macia, quentinha, com almofadas de cores garridas. O colo do avô era uma delícia. Aconchegava-me nas suas pernas e as mãos grandes que me trouxeram para casa faziam-me festas . E eu gostava tanto !

As manhãs eram calmas, naquela casa. As tardes passava-as na brincadeira com os meninos. E eles corriam atrás de mim A correr, sempre a correr escondia-me debaixo dos móveis. E eles chamavam:

_ Tobias .... Tobias ....

E eu a brincar, também corria a esconder-me noutro lado Até que depois de tanta brincadeira adormecia e sonhava que aquela era uma boa vida.

Nos dias quentes de verão a janela era o meu lugar preferido. O sol fazia desenhos na parede. Pareciam passaritos a voar. E eu aos saltos tentava agarrá-los.

Fui crescendo e os meninos também cresceram. Já não brincavam tanto comigo e eu também já não tinha tanta vontade de correr. Fiz-me um gato grande, luzidio, com uma vida de rei. Afinal eu passei a ser o rei daquela casa. Comia bem e dormia nos melhores lugares..Quando o Fiel espreitava lá para dentro de casa querendo entrar logo lhe diziam:

_ Aqui não há lugar para cães. E eu olhava-o a gozar com ele.

Um dia, estavam todos reunidos, sentados à mesa e ouvi dizer

_ Para a semana vamos de férias.

Férias ? Nunca tinha ouvido falar em férias. Não fazia a menor ideia do que seriam férias.

Os dias foram passando e não via mudanças na casa. Afinal as férias, não poderiam ser nada de anormal. Isso era o que eu pensava .....

No tal dia de início das férias, carregaram o carro com malas, malinhas e sacos Eu também fui ao colo. Já não cabia no bolso do avô. Só que o avô não ia lá. Sem que eu desse por isso, o avô falecera. Como as coisas mudaram!

Lá longe abriram a porta do carro e deixaram-me ali, no chão. Eu que nunca tinha andado na rua Era mimado como um rei, comia boa comidinha, dormia nas almofadas ou nas camas !

Fiquei quietinho, triste, a ver o automóvel a distanciar-se cada vez mais. Perdi-o de vista.

_ E agora ? Pensei.

Não conhecia nada nem ninguém. Quis entrar por uma porta aberta, mas enxotaram-me como faziam ao Fiel, lá em casa.

Cheio de fome e frio dormi na terra fria de um vaso, com uma flor a servir de teto.

Alguém caridoso deu-me de comer. Ao menos alguém teve pena de mim e fez-me festas, mas também se foi embora.

O dia chegou ao fim. Fui andando e descobri um barracão. Ali não chovia e o frio era menos intenso.

Já aconchegado num monte de palha, ouvi barulho perto. As orelhas ficaram alerta. Um rato passou e viu-me. Olhou com medo que eu lhe saltasse para cima e o matasse. Mas eu nunca fizera isso. Chamei-o.

_ Eu sou o Tobias e tenho medo, fome e frio.

_ Olha, Amigo. Aqui cada um por si. Tens que ir à vida. Procura !

Então pensei que todo o tempo que passei dentro de casa tinha sido inútil. Afinal era um prisioneiro daquela gente, sem vontade, molengão, mimado.

Agora, sim Tenho toda a liberdade de fazer o que muito bem me apetece. Posso correr atrás dos pássaros, das rãs, molhar os pés nos charcos. Como onde posso, chamam-me“ bicho”subo às árvores e até faço medo aos ratos. Um dia um cão vadio correu atrás de mim Levantei a cauda e o dorso a fazer-me grande

Sem querer troquei toda a vida de luxo pela minha liberdade !

Natércia Martins

2 comentários:

Sérgio Lopes disse...

Ó Natércia! Outra delícia de conto. Parabéns!

Volto a incentivar-te a fazeres uma colectânea dos teus contos para publicação. Partilhar os teus contos com o público apresenta-se, a meu ver, como quase uma obrigação.

Jinhos,

Sérgio (IVS 192)

Natércia Martins disse...

Obrigada. Vou começar a pensar nisso