quinta-feira, 22 de julho de 2010

Fintar o destino

EMÍLIA CLARA nasceu no Minho em 1853. Aos 17 anos rumou a Lisboa e caiu na prostituição. Tinha tudo contra ela: era provinciana, analfabeta e pouco sofisticada. Apesar da imagem romântica que chegou aos nossos dias, juntando fidalgos e carroceiros, fadistas e prostitutas em tabernas e lupanares, a prostituição estava socialmente muito estratificada. O destino mais certo da Emília era entregar-se, a troco de 40 réis por cliente, numa alfurja da Mouraria, do Bairro Alto ou da Esperança, onde viviam as putas mais baratas, levar pancada do chulo e acabar na miséria. Mas Emília Clara contrariou o destino. Era inteligente, aprendeu a ler e escrever, abonecou-se e frequentou os locais certos, onde aprendeu a conversar e a desenvolver os dotes de cortesã e a cobrar mais de 2 mil réis por companhia. Aos 30 anos, já famosa e conhecida como A Lavradeira, era dona de um dos mais refinados bordéis de Lisboa, em plena Baixa, na Rua da Prata (à época a prostituição era legal). Depois teve outros, cada vez mais luxuosos, frequentados pela mais elegante, rica e distinta sociedade lisboeta. Emília tornou-se figura notada na sociedade da capital. Não falhava os desfiles de Carnaval na Avenida, primeiro em caleche e depois em automóvel, ao lado do marido, e era figura notada na procissão da Senhora da Saúde, sempre descalça e junto ao andor e ao infante D. Afonso, irmão do rei D. Carlos. Morreu em 1908, com 55 anos, de derrame cerebral. O seu caixão foi transportado para o Minho numa carruagem de comboio especial cheia de flores e, como se pode ler no “Diário de Notícias” e no “Século” de 21 de Novembro de 1908, em testamento deixou ao marido um legado avaliado em 73 contos de réis. Mais de milhão e meio de euros, ao câmbio actual. António Mendes Nunes - Editor de Opinião

3 comentários:

Sérgio Lopes disse...

Mas onde vais buscar estas histórias? Sempre a aprender contigo. Abração

Antonio Garcez disse...

Bom, chama-se a isto uma "empresária" de sucesso na profissão mais velha do mundo.
Um grande abraço para ti, 14

Sérgio Lopes disse...

Vamos lá a dobrar a língua, AntónioG! Emília Clara foi mais que empresária... Foi a percursora do empreendedorismo "alternadeiro" em Portugal ahahahahah

Ao que consta, o Palácio de São Bento foi propriedade dela, daí ser a maior "casa de alterne" do país...