quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Lugar Cativo

Por volta de 1551 Lisboa tinha 100 mil habitantes, dos quais praticamente 10 mil eram escravos, na sua maioria negros vindos de Angola. À medida que iam chegando, para se ocuparem das tarefas mais mesquinhas, outros tantos portugueses miseráveis, fartos da fome e dessas tarefas mesquinhas, partiam para a Índia e para o Brasil, à procura de melhor vida, quase sempre sem grande êxito. E que faziam os escravos na capital? Apenas essas tarefas degradantes e violentas que mais ninguém queria? Não. Uma boa parte trabalhava nas casas de família como cozinheiros, na limpeza da casa, indo às compras ao mercado, a tratar dos meninos. Alguns mais sortudos acabavam por se tornar parte da família, e há muitos casos de rebentos mulatos, alguns perfilhados, enobrecidos e até tornados fidalgos, como Cristóvão Zuzarte, comandante de uma armada nos Açores.Não era invulgar os escravos, homens e mulheres, serem contemplados nos testamentos dos seus donos com heranças; por vezes até se oferecia a sua liberdade. Havia outros que, entregando-se a pequenos negócios, com a autorização dos seus proprietários, conseguiam comprá-la. No entanto, a esmagadora maioria desta gente tinha uma vida insuportável; não havia qualquer respeito por eles, nem dos mais humildes. Veja-se esta notícia do dia 29 de Julho de 1740: "Hontem hindo huma preta junto à cruz de Cataquefarás (o início da Rua de S. Paulo) com um vazo de imundicia humana a lançar na praya, se lhe meteu o fundo dentro, ficando-lhe metido atè aos hombros com cabeça, boca e olhos cheyos de imundicia, o que cauzou tanto rizo na plebe, que pareceu huma tarde de touros." . por António Mendes Nunes, Publicado em 27 de Janeiro de 2010 Editor de opinião

2 comentários:

Sérgio Lopes disse...

Mais uma excelente crónica do António MN a despertar o interesse histórico por uma época que deve ser analisada no seu contexto temporal e nunca fora dele. Evoluímos, aprendemos, nós, os portugueses. E não fomos nós certamente quem inventou a escravatura como frequentemente nos é apontado.

Origens da Escravatura

A escravatura começou com a civilização. Para os que se dedicavam à caça, escravos teriam sido um luxo fora do alcance das suas bolsas e não haveria comida suficiente para mantê-los vivos. Com o desenvolvimento da agricultura, porém, os derrotados nas guerras podiam facilmente ser tomados como escravos. A escravatura Ocidental remonta há pelo menos 10.000 anos na Mesopotâmia, hoje Iraque, onde um escravo do sexo masculino valia um pomar de árvores de fruta. As mulheres feitas escravas eram obrigadas a prestar serviços sexuais, ganhando a liberdade somente após a morte dos seus donos.

Os primeiros abolicionistas que se conhecem foram duas seitas Judaicas, os Essénios e os Terapeutas, que odiavam a escravatura e tentavam comprar escravos para depois os libertar.

Na antiga Grécia dava-se a preferência às mulheres e crianças escravas para o trabalho doméstico, uma vez que eram menos rebeldes que os homens, estes simples e sumariamente executados. Toda a mulher escrava que desse à luz uma criança, esta tinha portanto um pai livre, estatuto que era também concedido à criança e à mãe. Com o crescimento dos estados municipais gregos e da produção comercial do algodão a procura de escravos cresceu conduzindo à multiplicação das guerras. No século V a.C., Atenas tinha uma população de escravos sensivelmente maior que de cidadãos livres.

Durante o Império Romano, alargado a toda a região a costa Mediterrânea, o negócio da escravatura ganhou uma enorme importância. Os escravos eram treinados para multifunções, incluindo a função de Gladiador para o entretenimento público. Os imperadores romanos possuíam milhares de escravos para satisfazer todos e cada um dos seus caprichos. Actuavam como caixas, secretários e cobradores de impostos. Outros milhares foram destinados a trabalhos forçados nas minas de ouro e prata, onde labutavam até à morte. A chamada Escravatura de Plantação começou em Roma no século II a.C.. A Sicília conheceu vários levantamentos de escravos que culminaram com a revolta conduzida pelo célebre Spartacus. Quando a revolta foi finalmente esmagada, 6.000 escravos foram crucificados nos cerca de 300 km que unem Roma a Cápu.

Na Europa Medieval a Igreja aprovava a escravatura, opondo-se somente quando Cristãos eram tomados como escravos pelos “Infiéis”. É que os Vikings invadiram a Grã-Bretanha no início dos anos 800 e venderam os seus cativos nos mercados de Constantinopla e da Espanha Islâmica. A região era um paraíso para o comércio de escravos, no qual participavam Cristãos, Muçulmanos e Judeus. A Peste Negra causou um aumento exponencial na demanda de escravos domésticos na Itália. No século XVI o Papa Paulo III tentou controlar O Protestantismo ameaçando com a escravatura quem abandonasse a Igreja Católica.

Continua.

Sérgio Lopes disse...

Os portugueses inauguraram o comércio transatlântico da escravatura, logo seguidos dos espanhóis. A conquista das Ilhas das Caraíbas por Cristóvão Colombo destruiu virtualmente a cultura indígena. Logo de seguida outras nações colonizadoras caíram sobre as Américas. A produção industrial do açúcar e tabaco passou a depender de trabalho escravo. Com os Índios a morrerem de doenças importadas da Europa, em 1600 já tinham sido “importados” para as Américas cerca de 1 milhão de escravos africanos. As nações africanas não foram observadores inocentes no comércio escravo, pois forneciam os contingentes de carne humana a troco de bebidas alcoólicas, tabaco, armas e ornamentos, e elas mesmas praticavam a escravatura entre elas desde sempre

Os ingleses foram os principais comerciantes de escravos, trazendo mercadorias da Inglaterra para trocar por escravos africanos que depois vendiam aos espanhóis e portugueses do Novo Mundo. A triangulação do negócio de escravos construiu a riqueza da Grã-Bretanha.