sexta-feira, 17 de junho de 2011

Estória de Caça

 Conto da autoria do antigo aluno João Facha

Eram mais ou menos 5 da manhã e, nós lá íamos…….

A promessa que já levava alguns meses a ser cumprida, estava agora em marcha.

Íamos aos patos!

Com lama!

Com mosquitos!
 
Com frio!

Sem o pequeno-almoço do costume, mas, lá íamos!

O carro, coitado dele, lá ia chiando a cada buraco, seria estrada, não parecia mesmo, mas sempre íamos em frente.

Cá por dentro ia rindo, o Manel (primo) agarrado ao volante ia “fintando” as covas.

O Rui, a seu lado olhava, segundo a segundo o relógio e só dizia, “Bolas, é tarde!!!  A estas horas já todos os patos estão no Mar!
A meu lado o Pai sorria, com calma, feliz com o ambiente e, com o facto de eu ir ali, encostada ao seu ombro, de olhos fechados como que a dormir com os anjos.

Facto é que, afinal todas as promessas de me levar aos patos estavam em marcha, cumpriam-se.

Na véspera achei graça…. Tantos cuidados…. O farnel, o fogareiro, o sumo, o banco, as botas, até o creme anti-mosquito e, foi por pouco que a espingarda não ficou no seu armário, tal era a preocupação para que nada “ME” faltasse.

Mesmo agora, de olhos fechados, encostada a esta mesa que viu e sentiu já tanta coisa, não consigo (nem quero) esquecer nenhum momento!!!!

Ana! Ana! Acorda filha, chegámos! Ouvi meia estremunhada.
Cá fora era a grande bagunça!

Madrugada alta, frio, pouco vento, mas uma aragem que fazia alguns arrepios, e me fazia lembrar o doce aconchego do “edredon”.

Negaças, botas, camisolas, casacos, gorros, bolsas de espingardas e, palavras soltas, “vento”, “Gordo”, “horas”, “café” e patos, “colhereiros”, “marrecos”,”reais” tudo seguido, no meio indescritível da arrumação à “Homem”, ou seja: tudo ao molho, e Fé em Deus!!!

Dei por mim com uma sanduíche de presunto numa mão, um copo de café pingado na outra, e um saco aos pés!

“Come depressa e não te afastes, é escuro, não te aleijes…. Estás a gostar?.....

Agora, só agora, dei por isso, e já lá vão uns tempos, de facto, estava a gostar…!
 
Eu fico na minha “murraça” adiantou o Rui, tenho fé que ainda tenha ficado para trás alguma ‘marreca’!

O Manel seguiu pela vereda mas sempre disse, “vão vocês lá para baixo, é mais fácil para a miúda, e há menos mosquitos, eu vou para o ‘esteiro’”.

Ainda não tínhamos arrumado as coisas, e dois tiros quase seguidos foram disparados pelo Rui.

Depois, foi a vez do Manel que saudou o nascer do dia com três tiros rápidos. E, nós só mosquitos…

Mais tiros do Rui e um pato todo ‘embrulhado’ caiu na margem… logo depois outro, e nós mais mosquitos, só mosquitos! 

São agora nove e meia da manhã e o meu pai calmamente diz: “mais meia hora e, ala que se faz tarde!...”

Foi a frase mágica, olhei para ele e ao baixar os olhos para a água vi-os, eram três, vinham rente à superfície e direitos a nós…”Pai, olha à direita”, rápido saíram dois tiros e, ainda, um terceiro. Já em pé e a correr vi que dois patos já nós tínhamos!

Por minutos voltou a calma, mas logo depois um grande bando vinha na mesma rota, nova chamada de atenção ao meu pai, mas ele já os vira e da espingarda que eu tantas vezes vi em repouso, saíram três tiros…, rápidos… seguidos, e que derrubaram três ‘marrecos’.

Depois deste alvoroço seguiu-se outra acalmia, o Sol entretanto já nascido, estava alto embora o frio ainda fosse muito.

A caçada, a tal caçada prometida tinha acontecido, agora era o regresso, primeiro ao carro onde os resultados foram largamente comentados.
Eu toda contente, mostrava ao Manel os ‘nossos’ troféus, e arreliava-o pois ele só tinha um, e era mais pequeno. O Rui, com dois patos, alinhava na brincadeira, e voltava a barafustar com as horas, desta vez era o almoço que foi comido num restaurante à beira da estrada.

Nestas coisas, o regresso nunca tem história e, se este teve, eu não a posso contar porque, agora sim, aproveitei o balanço do carro e o ombro do meu pai e dormi todo o caminho.

Agora, que estão postas no papel estas linhas, e que já cheira a primavera, dou por mim a pensar: 

-- Quando é que começa a nova época de caça?

-- Serão saudades?

Convites, esses já tenho!!!

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Faleceu Nuno Bonneville

Nuno com o filho

Com muita consternação recebemos ontem, 25 de Maio 2011, a triste notícia do falecimento do ex-aluno e nosso querido amigo Nuno Bonneville com quem partilhámos alguns anos dos nossos teens no internato IVS nos anos 50 do século passado.

Para quem não sabe Nuno Bonneville era pai do forcado com o mesmo nome, com que aparece na fotografia. Não tendo sido forcado, era amigo do Grupo GFA Lisboa há largos anos, tendo sido amigo de Nuno Salvação Barreto e convivido com muitos outros forcados do Grupo nas célebres noites de Lisboa das décadas de 60 e 70.

Ontem foi aprovado na Câmara de Lisboa, por proposta do CDS, um voto de pesar pela morte de Nuno Bonneville, que foi vereador da autarquia no mandato de Nuno Abecassis, tendo sido igualmente presidente da Junta de Freguesia de Santa Maria de Belém.

Hoje, 26 de Maio, realiza-se uma missa às 14h na Igreja dos Jerónimos e o funeral é às 15h30.

Adeus Nuno! Lá para onde foste, descansa em PAZ e guarda-nos um cantinho para quando chegar a nossa vez.

A toda a Família Bonneville, as nossas sentidas condolências.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Crónica semanal do António Mendes Nunes (IVS nº 14)

Revista universal


por António Mendes Nunes, Publicado no Jornal I, em 13 de Abril de 2011

A "Revista Universal Lisbonense", que se publicou em Lisboa em meados do século xix, merece referência especial entre as muitas que existiram na capital. Funcionou na Rua da Horta Seca, no n.o 20 (num prédio que já não existe e onde está hoje a Casa da Imprensa). Saía à quinta e era chegava a todo o país, pelo correio (a Trás-os-Montes ou ao Minho uns quatro dias depois, mas em Lisboa nunca era entregue em casa dos assinantes depois das 11 da manhã).

Tinha arroubos enciclopédicos, pois no cabeçalho apresentava os assuntos de que tratava, nada menos do que crónica judicial, artística, científica, literária, agrícola, comercial, industrial e económica de todo o mundo. As notícias lá de fora eram tiradas de outros jornais, só às vezes com citação de fonte, ou, o que era mais comum, sem qualquer indicação para além de iniciais, nomeadamente as mais fantasiosas, com no primeiro número, de 1 de Outubro de 1841, que noticia que um militar alemão inventara um método para andar sobre a água, sem o auxílio de qualquer aparelho, ou que um francês residente em Portugal tinha descoberto um método barato e eficaz de fazer papel de qualidade a partir de estrume de cavalo. Não faltavam os crimes cometidos em Lisboa, o tempo, os espectáculos da capital e, pasme-se, todos os livros que se encontravam no prelo. A isto não deve ser estranho um dos seus redactores: Feliciano de Castilho. Fechou em 1849 e boa parte dos seus exemplares estão digitalizados em http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/OBRAS/RUL/1841-1842/1841-1842.htm.



Editor de opinião

quarta-feira, 23 de março de 2011

Crónica semanal do nosso 14 no i

À sombra dos Jesuítas
por António Mendes Nunes, Publicado em 23 de Março de 2011
 
No início de 1514, aí por Janeiro ou Fevereiro, começaram a abrir- -se as ruas e a demarcar-se os lotes que dariam origem à Vila Nova de Andrade (do nome do proprietário do terreno, a Herdade de Santa Catarina), que não muito tempo depois se passou a chamar Bairro Alto de São Roque. Muitas das ruas que hoje conhecemos mantêm o nome original, casos das ruas do Norte, das Flores (das Froles, se dizia então), da Barroca, da Rosa, das Gáveas, da Atalaia, e ainda outras. Mas o bairro não nasceu todo de uma vez, nada disso. Lá em cima, a parte que pega com os Moinhos de Vento (hoje Rua D. Pedro V e prédios adjacentes) foi cemitério dos mortos de uma peste grande, por carta datada de 1523, como ordenava D. João III, recolhido aos ares mais puros de Almeirim. Mais tarde, em 1555, poucos anos depois de se terem instalado em Portugal (com a primeira casa situada na Lisboa Oriental), os jesuítas mudaram-se também para o Bairro Alto, construindo uma pequena capela no local onde hoje se situa uma das capelas laterais de S. Roque.

Foi talvez a presença próxima dos padres da Companhia que tornou aquele lugar, até aí de olivais, tão apetecido. A ocupação inicial foi de gentes do mar, não propriamente de humildes marinheiros, mas sim de fidalgos navegadores e de mestres, que foram obrigados a construir casa de alvenaria nos três anos seguintes ao aforamento do terreno. Nasceu assim um bairro de ruas ordenadas, ares lavados e sítios amenizados pela sombra das árvores e pelo perfume das flores dos jardins. O Bairro Alto que hoje vemos é igualzinho ao de há 400 anos no xadrez das suas ruas, mas não na concentração de casas. Os quintais e os jardins foram sendo desmantelados para dar lugar a prédios e mais prédios.

Editor de opinião
Escreve à quarta-feira