Para os que ainda acreditam na história ...aqui vão estes postais (antigos) com os votos de BOAS -FESTAS e o ano 2010 com muita saúde para os leitores deste Nosso Blogpor António Mendes Nunes, Publicado em 25 de Novembro de 2009
A antiga Praça dos Remolares passou a chamar-se, depois de 1834, de Duque da Terceira, mas ninguém a conhece por outro nome que não o do sítio que lhe fica ao lado: Cais do Sodré. Em Março de 1708, D. Francisco de Sousa, proprietário no local, embarcou na outra banda, em várias fragatas, grandes quantidades de tábuas, barrotes e telhas e fê-las descarregar na praia do Cais do Sodré assim que escureceu. Várias dezenas de trabalhadores, à luz de archotes, meteram mãos à obra e deram início à construção de um bairro durante a noite.
Poucos horas depois compareceu no local um funcionário judicial que, perante a falta de licença, mandou parar a obra, mas a resposta de D. Francisco de Sousa, homem rico e influente, provador dos vinhos da Casa Real, foi categórica: "A esta hora da noite não se fazem diligências..." E de manhã a rua de casas estava prontinha.
Apesar de tudo, nesse tempo a justiça não era assim tão demorada a actuar como agora e logo de manhã o desembargador André Freire de Carvalho, vereador e chanceler do Senado da Câmara, acompanhado de alguns funcionários, foi ao local, tomou posse dos terrenos em nome da cidade de Lisboa e depois deixou que os populares do bairro deitassem abaixo toda a obra, levando para casa os materiais.
D. Francisco de Sousa queixou- -se ao rei, que mandou abrir um inquérito, tendo o caso passado ao Tribunal da Relação, de cuja sentença não ficou memória.
Vêm de longe, como se constata, as várias tropelias feitas pelos poderosos. Os métodos para as combater é que hoje são um pouco menos expeditos...
Editor de opinião
Escreve à quarta-feira
por António Mendes Nunes, Publicado em 02 de Dezembro de 2009 no jornal iOnline
Giuseppe Verdi poderia ter vindo para Portugal como maestro titular do Teatro Nacional de S. Carlos, corria o ano de 1838. E se tivesse vindo, teria tido a carreira fabulosa que acabou por desenvolver? Ter-lhe-ia proporcionado Lisboa inspiração que lhe permitiu escrever as óperas "Nabuco", "Aida", "Rigoletto", "O Trovador", "Traviata" e outras que o consolidaram como um dos mais famosos compositores de sempre?
O conde de Farrobo era um riquíssimo homem muito ligado às artes e à música. Tornou-se empresário do S. Carlos e resolveu contratar em Itália um director artístico. Os seus amigos do Teatro alla Scala de Milão indicaram-lhe dois candidatos, ambos jovens e promissores, um tal Verdi e um certo Frondoni. O primeiro acabara de ver a sua ópera de estreia no Scala, "Oberto", ser recebida com extrema frieza, seguindo-se um fiasco no mesmo teatro com o segundo trabalho, "Um giorno di Regno".
Farrobo decidiu-se por Frondoni, que tivera grande êxito com o bailado "Il Carrozino dà Vendere", igualmente no Scala de Milão.
Dois anos mais tarde e depois de umas farsas que não fizeram história, o Conde de Farrobo deixou o S. Carlos e Frondoni também. Dedicou-se ao ensino da dança, escreveu mais uma série de farsas sem grande colorido, escreveu o hino da Maria da Fonte e acabou a vida a fumar cachimbo e a beber copos com os amigos no Café Madrid, no Chiado.
E Verdi? Teve o seu primeiro estrondoso êxito em 1842 com Nabuco e nunca mais parou. O mundo conheceu um génio, Lisboa contentou-se com a mediocridade.
O quarto dos brinquedos
Quando vou visitar os netos, durmo no quarto dos brinquedos.
Este fim de semana, fui lá. A casa é grande, situada num lugar calmo e com sol a entrar por todas as janelas.
Quando a noite cai todos dormem
A luz do candeeiro público ilumina tenuamente o quarto.
Adormeci.
Pela madrugada acordei e olhei em volta. Que grande animação !
Pois é .....
Os brinquedos saíram de dentro do grande caixote e andavam pela casa numa tremenda “ rebaldaria”.
Por baixo da minha cama um comboio de pilhas percorria os espaços livres com as luzes a piscar. De vez em quando, o pequeno maquinista, fazia soar a sirene. Nas carruagens sentavam-se todos os animais e bonecos, em perfeita harmonia: leões, peluches, gatinhos, cães, macacos e um elefante. E riam, e riam ....
O polícia de lata ia e vinha até à porta do quarto. Lá ao fundo, um dragão desenhado no tapete, sacudia-se todo, com as cócegas que o combóiozinho, lhe provocava à sua passagem.
Sentei-me na cama. Seria possível ?
E foi, então, que ouvi um choro fininho, sentido. Levantei-me. Espreitei e no fundo de uma caixa de papelão, mesmo lá no fundo, uma bonequinha de plástico sem uma perna. Era ela que chorava .
Olhou-me. Vi os seus olhos castanhos, cheios de lágrimas, implorar que a tirasse dali.
Curvei-me sobre o caixote. Estendeu-me sobre o caixote. Estendeu-me um braço. O outro também estava partido. Aninhou-se no meu colo e olhou em volta, admirada de tanto movimento.
Contou-me que fora presente de aniversário.
Vinha embrulhada em papel prateado com um laçarote em cima. Em cima da mesa viu o bolo com as velinhas de coloridas e e todos os familiares da menina, cantar os parabéns.
Andou de automóvel e de carrinho de bébé. Vestiu casacos de lã e calças de papel.
Apaixonou-se pelo palhacito de cabelo vermelho e boca pintada.
Ele também gostava dela. Passeavam de mão dada e trocavam beijos doces. Dormiam no fundo do caixote bem juntinhos.
Contavam segredos um ao outro e riam, e riam, felizes.
Um dia aconteceu o acidente. Alguém pisou, sem querer, a pequena boneca.
Sem uma perna e um braço partido, já não era bonita e foi posta de lado. Ficou no fundo do caixote dos brinquedos.
Todas as noites ouvia a animação que se fazia cá fora mas impotente nas suas deficiências, ali ficou esquecida.
O pior é que o palhacito, sua grande paixão, também se esqueceu dela.
Olhou em volta à procura. Mais algumas lágrimas caíram dos olhitos cansados da boneca. É que o bonequinho de boca pintada e cabelo vermelho, corria de mão dada com a bailarina. Esta, dançava em pontas, nos sapatos cor de rosa e folhos verdes, mostrando duas pernas perfeitas, indiferentes a mim e à minha amiga.
O comboiozinho lá andava às voltas reluzente e de luzes a piscar com os animais e bonecos nas carruagens.
Ela não parava de chorar. No seu coraçãozito de boneca, a mágoa e a raiva de ser trocada e esquecida.
__ Pensam que não tenho sentimentos. Põe a mão aqui no meu peito, disse-me ela.
Vês como bate ? É a emoção de voltar a ver os meus amigos com quem brinquei tanta vez. O meu palhacito ! Tenho saudades da menina a quem me deram de presente. O meu palhacito !
Foi bom votar a vê-lo! Que bom ! Podia dizer-lhe tantas coisas bonitas ! Não posso. Ele nem sequer me olha ! Mas foi bom !
A manhã começou a raiar. Lentamente os brinquedos voltaram aos seus lugares dentro do caixote.
Peguei na bonequinha e com muito cuidado coloquei-a numa estante no meio dos livros.
Manhã clara ! Um a um a filha, o genro e os netos iniciaram a sua lida sem se aperceberem que na calada da noite, enquanto se dorme, naquele quarto há alegria, festas e dramas.
Eu, quando me levantei, passei pela estante dos livros, a boneca sorriu como a dizer-me:
__ Obrigada por me teres dado a oportunidade de voltar a ver o meu palhacito, mais uma vez...
Natércia Martins